sábado, 1 de abril de 2017

A CRIAÇÃO DOS HOMENS, de Juareiz Correya






"A CRIAÇÃO DOS HOMENS"
(página da antologia 
"Poetas dos Palmares",
organizada por Juareiz Correya, 
 2a. edição, 1987) 





"O poeta toca as palavras, 
magia que toca as pessoas. 
Há uma multidão em sua fala. 
As palavras germinam, 
crescem, andam, ardem, crepitam 
e fenecem.  E todos os dias ressuscitam. 
Como ressuscitamos. 
Com um sopro e um sol pronunciado..."   







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Página da antologia POETAS DOS PALMARES  
(FUNDARPE - Fundação do Patrimônio Histórico e 
Artístico de Pernambuco / Fundação Casa da Cultura 
Hermilo Borba Filho - Recife,/ Palmares, 
2a. edição, 1987) 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

FERREIRA GULLAR : "SUBVERSIVA"







Ferreira Gullar  
(Rio de Janeiro, RJ, 1980) 





SUBVERSIVA  


A poesia 
quando chega 
                        não respeita nada. 
Nem pai nem mãe. 
                        Quando ela chega  
de qualquer de seus abismos 
desconhece o Estado e a Sociedade Civil 
desrespeita o Código de Águas  
                                                       relincha  
como puta 
          nova 
          em frente ao Palácio da Alvorada.


E só depois 
reconsidera : beija 
                       nos olhos os que ganham mal  
                       embala no colo  
                       os que têm sede de felicidade  
                       e de justiça  


E promete incendiar o país    



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Poema do livro NA VERTIGEM DO DIA  
(Editora Civilização Brasileira, 
Rio de Janeiro, RJ, 1980)  / 
Transcrito da Revista POESIA  
- Nordestal Editora, Recife, PE, 
agosto e setembro, 1980



terça-feira, 22 de novembro de 2016

ELLY RAMOS : "PARA QUE DIABO SERVE O POETA ?"





ELLY RAMOS   
(Cruz das Almas, BA) 




Para que diabo serve o poeta ? 
Para colher punhado de estrelas ? 
Para beijar o sorriso da noite ? 
Para colher frutas maduras fora de época ? 
Para sonhar enquanto o mundo faz guerra ? 
Para vestir o noturno de azul ? 
Para deslumbrar-se com os voos coloridos das borboletas ? 


Sei lá... talvez para sorrir, 
para chorar ao rabiscar 
a folha em branco.   


Ontem vi uma árvore de pássaros...    



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ELLY RAMOS vive em Cruz das Almas (BA). 
Cursou Letras Vernáculas na UNEB - 
Universidade do Estado da Bahia.  
É professora de Língua Portuguesa 
(SENAI Bahia).  Lançou o livro 
RAROS POEMAS A SUA PROCURA (2014). 
Publica vários escritos nas redes sociais 
e o blog CORPOS SECRETOS  
(http://corpossecretos.blogspot.com.br) 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

MANUEL ALEGRE : "CADA POEMA É UMA DERROTA PARA A INDIGÊNCIA POLÍTICA, CULTURAL E ATÉ MESMO LITERÁRIA"





Manuel Alegre, poeta e político 
(Portugal) 




          "A Literatura nasceu da linguagem e da imaginação. Poetas e romancistas continuam, com palavras, a tentar mudar e reinventar a vida.  E, às vezes, a tentar adivinhar, porque a escrita continua a ser uma vidência.   

         Não sei falar de Literatura nem de poesia. Nem sei se uma está relacionada com a outra.  A Literatura, para mim, é uma espécie de cerimônia de exorcismo, de libertação, não de purga.  Escrever sempre foi um estado de graça, mesmo nos tempos mais terríveis, de guerra, de prisão, de exílio, de despedidas.  Rejeitaria a possibilidade de ser um daqueles poetas intemporais ou fora da História.  (...) 

          A atividade poética é revolucionária por natureza. 

          Escrever é um acontecimento cósmico e cada palavra é um palácio do universo.  Não sei se é a existência ou se é a vida que se transmuda em palavras.  Creio que, para escrever um só verso, é preciso ter visto muitas cidades, conhecido muitos homens.  

          Que sentido tem hoje a poesia num mundo governado pela ganância e pela estupidez ?  Há o peso, não da ditadura, mas de forças invisíveis a que chamam mercados e que roubam as reformas aos velhos e o futuro aos jovens.  É para isso que serve a poesia hoje.  Cada poema que se escreve é uma derrota para a indigência política, cultural e até mesmo literária e da regressão civilizacional que hoje estamos a viver."  


(MANUEL ALEGRE, na 17a. edição do "Correntes d'Escritas", 
Póvoa de Varzim, Portugal - Fevereiro de 2016 - 
http://www.cm-pvarzim.pt) 











   

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

OLÍMPIO BONALD NETO : "POESIA É :"





Olímpio Bonald Neto  
(Olinda, PE) 




Ver na queimada o verde milharal, 
Na pedra muda, 
Outras vozes da vida ressoando.  


Na infinda luta do sobreviver
Inda querer  
As batalhas do amor.  


Na ante-Morte  do sono pressentir
Os dons da vida despertando poentes. 
E, em madrugadas descobrir poentes
E, na escuridão, o meio dia.   


Que vendo, descobrindo ou pressentindo 
O que ninguém, talvez, perceberia 
Faz-se um poema, pois a Poesia 
Nada mais é do que ver na semente 
A Flor e, até na Dor, Vida, somente !!!   


(Olinda, sexta-feira da Paixão de 2004) 



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OLÍMPIO BONALD NETO nasceu em Olinda (PE). 
Poeta, contista, cronista, professor universitário. 
Pertence à Academia Pernambucana de Letras. 
Já presidiu a UBE - PE, sediada no Recife. 
Publicou estes livros de poesia : 
Tríptico - Vida, Paixão e Canto, Cantoria, 
Poética Olindense, O Livro de Poesia de Olímpio 
Bonald Neto.  



quinta-feira, 30 de junho de 2016

MARIA DO CARMO BARRETO CAMPELLO DE MELO : "DEPOIMENTO" (fragmento)






Maria do Carmo Barreto 
Campello de Melo 
(Recife, PE) 





Agora
devo só esperar que as coisas aconteçam  
anti-ser anti-sendo 
e surpreendendo o avesso das coisas  : 
                   o som silente do grito 
estrangulado na garganta e 
                                                 o anti-sol 
desta manhã nascemorrendo.   


Difícil amigo 
                                                         ser poeta nestes tempos
e nesta hora em que devo esperar 
que as coisas aconteçam e 
escrevo sobre a água um poema de amor  
                                                                                que não lerás.  


Difícil é ser poeta 
                              nestes tempos  
Difícil é ser.  




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Transcrito do livro PALAVRA DE MULHER 
(Poesia Feminina Brasileira Contemporânea) 
- Organizado por Maria de Lourdes Hortas  
(Editora Fontana, Rio de Janeiro, RJ, 1979) 

domingo, 22 de maio de 2016

BORIS PASTERNAK : "DEFINIÇÃO DE POESIA"


BORIS PASTERNAK 
(Primeiro Congresso de Escritores
Soviéticos, Moscou, Rússia, 1934) 




Um risco maduro de assobio. 
O trincar do gelo comprimido. 
A noite, a folha sob o granizo. 
Rouxinóis num dueto desafio. 


Um doce ervilhal abandonado
A dor do universo numa fava.  
Fígaro : das estantes e flautas - 
Geada no canteiro, tombado. 


Tudo o que para a noite releva  
Nas funduras da casa de banho, 
Trazer para o jardim uma estrela 
Nas palmas úmidas, tiritando.  


Mormaço : como pranchas na água, 
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.  
Se dirá que as estrelas gargalham, 
E no entanto o universo está surdo.    



(Transcrito do blog A PLANÍCIE ENTRE MUNDOS 
- http://aplanicie.wordpress.com -, 
do escritor Paulo Victor Rechia Gomes da Silva) 


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BORIS PASTERNAK nasceu em Moscou (fevereiro, 1890) 
e faleceu em Peredelkino (maio, 1960). Estudou Filosofia 
na Alemanha e retornou a Moscou em 1914, ano em que 
publicou o seu primeiro livro de poesia ("Gêmeo nas Nuvens").
Publicou ainda 8 livros de poesia e 8 livros de ficção, 
incluindo o seu famoso romance "Doutor Jivago"
(Itália, 1958).  Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura - 
Ano 1958 e foi impedido, pelo Governo da União 
Soviética, de receber o prêmio, sendo obrigado a devolver 
a honraria. Falecido no ano de 1960, o escritor não pôde 
ver o seu livro "Doutor Jivago" se tornar um sucesso 
mundial no cinema (1965). E também a sua liberação 
na Rússia, somente em 1989, quase 30 anos após a sua morte.