sábado, 23 de setembro de 2017

YEVTUSHENKO : "O poeta tem o dever de se apresentar de coração aberto"






YEVTUSHENKO
 (Rússia, 1932 - 
Estados Unidos, 2017) 





          "A autobiografia de um poeta são seus próprios poemas. O resto é suplementar. 

          O poeta tem o dever de se apresentar aos leitores com seus sentimentos, atos e pensamentos, de coração aberto.

        Para ter o privilégio de exprimir a verdade dos outros, ele deve pagar um preço: entregar-se, impiedosamente, à sua verdade.

         Enganar lhe é vedado. Se desdobrar a sua personalidade - de um lado, o homem real e, do outro, o homem que se expressa - se tornará estéril.  É inevitável.  

          Quando Rimbaud tornou-se traficante de negros, agindo contra os seus ideais poéticos, deixou de escrever.  Foi a solução honesta.  

         Infelizmente, nem sempre é assim. Alguns se obstinam em escrever mesmo quando sua vida não coincide mais com a sua poesia. Abandonando-os, a poesia se vinga.  Mulher rancorosa, ela não perdoa a mistificação, nem mesmo as meias-verdades.  

          Diante de um espelho, que os homens digam, não quantas vezes mentiram, mas, simplesmente, quantas vezes preferiram o conforto do silêncio.   

          Sei que eles têm um álibi, com certeza, inventado por seus similares : o silêncio é de ouro.  A eles eu responderia : essa espécie de ouro não é pura. Esse silêncio é falso.  

          Isso é válido para todos os mortais, mas cem vezes mais ainda para os poetas, que devem expressar uma verdade concreta.  Quando se começa por silenciar a sua própria verdade, acaba-se inevitavelmente por silenciar sobre as verdades, sofrimentos e infelicidades dos outros."   

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 Fragmento inicial  do primeiro capítulo do livro 
AUTOBIOGRAFIA PRECOCE, de Eugênio Evtuchenko 
(Tradução de Yedda Boechat /  
 Editora Brasiliense, São Paulo, SP, 1a. edição, 1984) 
          
          
          

terça-feira, 1 de agosto de 2017

AUGUSTO DOS ANJOS : "VENCEDOR" (do livro EU)







EU (capa), 
de Augusto dos Anjos 
(Rio de Janeiro, RJ, 
1912)




Toma as espadas rútilas, guerreiro, 
E à rutilância das espadas, toma, 
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração - estranho carniceiro.  


Não podes ?! Chama então presto o primeiro 
E o mais possante gladiador de Roma
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma, 
Nenhum pôde domar o prisioneiro.    


Meu coração triunfava nas arenas. 
Veio depois um domador de hienas 
E outro mais, e, por fim, veio um atleta. 


Vieram todos por fim, uns cem, 
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém, 
Que ninguém doma um coração de poeta !


(Engenho Pau d'Arco, Sapé - PB, 1902)


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AUGUSTO DOS ANJOS nasceu no Engenho Pau d'Arco,
 Sapé ( PB) , em abril de 1884. Estudou no Liceu Paraibano
e na Faculdade de Direito do Recife, de 1903 a 1907. 
Formado em Direito, retornou para João Pessoa (PB), 
e lecionou Literatura Brasileira em aulas particulares. 
Professor do Liceu Paraibano, com 24 anos de idade, 
muda-se para o Rio de Janeiro (RJ) em 2010.  No ano 
seguinte é nomeado professor - Geografia - no Colégio 
Pedro II.  
Publicou vários poemas em jornais e revistas da época. 
Em 1912 publicou seu único livro - EU -, mal recebido 
pela crítica e escritores contemporâneos.  
O poeta faleceu em Leopoldina (MG), acometido de uma 
pneumonia, em 1914, aos 30 anos de idade.  
O seu único livro publicado já se multiplicou em 
mais de 40 edições brasileiras.    



sábado, 1 de abril de 2017

A CRIAÇÃO DOS HOMENS, de Juareiz Correya






"A CRIAÇÃO DOS HOMENS"
(página da antologia 
"Poetas dos Palmares",
organizada por Juareiz Correya, 
 2a. edição, 1987) 





"O poeta toca as palavras, 
magia que toca as pessoas. 
Há uma multidão em sua fala. 
As palavras germinam, 
crescem, andam, ardem, crepitam 
e fenecem.  E todos os dias ressuscitam. 
Como ressuscitamos. 
Com um sopro e um sol pronunciado..."   







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Página da antologia POETAS DOS PALMARES  
(FUNDARPE - Fundação do Patrimônio Histórico e 
Artístico de Pernambuco / Fundação Casa da Cultura 
Hermilo Borba Filho - Recife,/ Palmares, 
2a. edição, 1987) 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

FERREIRA GULLAR : "SUBVERSIVA"







Ferreira Gullar  
(Rio de Janeiro, RJ, 1980) 





SUBVERSIVA  


A poesia 
quando chega 
                        não respeita nada. 
Nem pai nem mãe. 
                        Quando ela chega  
de qualquer de seus abismos 
desconhece o Estado e a Sociedade Civil 
desrespeita o Código de Águas  
                                                       relincha  
como puta 
          nova 
          em frente ao Palácio da Alvorada.


E só depois 
reconsidera : beija 
                       nos olhos os que ganham mal  
                       embala no colo  
                       os que têm sede de felicidade  
                       e de justiça  


E promete incendiar o país    



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Poema do livro NA VERTIGEM DO DIA  
(Editora Civilização Brasileira, 
Rio de Janeiro, RJ, 1980)  / 
Transcrito da Revista POESIA  
- Nordestal Editora, Recife, PE, 
agosto e setembro, 1980



terça-feira, 22 de novembro de 2016

ELLY RAMOS : "PARA QUE DIABO SERVE O POETA ?"





ELLY RAMOS   
(Cruz das Almas, BA) 




Para que diabo serve o poeta ? 
Para colher punhado de estrelas ? 
Para beijar o sorriso da noite ? 
Para colher frutas maduras fora de época ? 
Para sonhar enquanto o mundo faz guerra ? 
Para vestir o noturno de azul ? 
Para deslumbrar-se com os voos coloridos das borboletas ? 


Sei lá... talvez para sorrir, 
para chorar ao rabiscar 
a folha em branco.   


Ontem vi uma árvore de pássaros...    



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ELLY RAMOS vive em Cruz das Almas (BA). 
Cursou Letras Vernáculas na UNEB - 
Universidade do Estado da Bahia.  
É professora de Língua Portuguesa 
(SENAI Bahia).  Lançou o livro 
RAROS POEMAS A SUA PROCURA (2014). 
Publica vários escritos nas redes sociais 
e o blog CORPOS SECRETOS  
(http://corpossecretos.blogspot.com.br) 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

MANUEL ALEGRE : "CADA POEMA É UMA DERROTA PARA A INDIGÊNCIA POLÍTICA, CULTURAL E ATÉ MESMO LITERÁRIA"





Manuel Alegre, poeta e político 
(Portugal) 




          "A Literatura nasceu da linguagem e da imaginação. Poetas e romancistas continuam, com palavras, a tentar mudar e reinventar a vida.  E, às vezes, a tentar adivinhar, porque a escrita continua a ser uma vidência.   

         Não sei falar de Literatura nem de poesia. Nem sei se uma está relacionada com a outra.  A Literatura, para mim, é uma espécie de cerimônia de exorcismo, de libertação, não de purga.  Escrever sempre foi um estado de graça, mesmo nos tempos mais terríveis, de guerra, de prisão, de exílio, de despedidas.  Rejeitaria a possibilidade de ser um daqueles poetas intemporais ou fora da História.  (...) 

          A atividade poética é revolucionária por natureza. 

          Escrever é um acontecimento cósmico e cada palavra é um palácio do universo.  Não sei se é a existência ou se é a vida que se transmuda em palavras.  Creio que, para escrever um só verso, é preciso ter visto muitas cidades, conhecido muitos homens.  

          Que sentido tem hoje a poesia num mundo governado pela ganância e pela estupidez ?  Há o peso, não da ditadura, mas de forças invisíveis a que chamam mercados e que roubam as reformas aos velhos e o futuro aos jovens.  É para isso que serve a poesia hoje.  Cada poema que se escreve é uma derrota para a indigência política, cultural e até mesmo literária e da regressão civilizacional que hoje estamos a viver."  


(MANUEL ALEGRE, na 17a. edição do "Correntes d'Escritas", 
Póvoa de Varzim, Portugal - Fevereiro de 2016 - 
http://www.cm-pvarzim.pt) 











   

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

OLÍMPIO BONALD NETO : "POESIA É :"





Olímpio Bonald Neto  
(Olinda, PE) 




Ver na queimada o verde milharal, 
Na pedra muda, 
Outras vozes da vida ressoando.  


Na infinda luta do sobreviver
Inda querer  
As batalhas do amor.  


Na ante-Morte  do sono pressentir
Os dons da vida despertando poentes. 
E, em madrugadas descobrir poentes
E, na escuridão, o meio dia.   


Que vendo, descobrindo ou pressentindo 
O que ninguém, talvez, perceberia 
Faz-se um poema, pois a Poesia 
Nada mais é do que ver na semente 
A Flor e, até na Dor, Vida, somente !!!   


(Olinda, sexta-feira da Paixão de 2004) 



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OLÍMPIO BONALD NETO nasceu em Olinda (PE). 
Poeta, contista, cronista, professor universitário. 
Pertence à Academia Pernambucana de Letras. 
Já presidiu a UBE - PE, sediada no Recife. 
Publicou estes livros de poesia : 
Tríptico - Vida, Paixão e Canto, Cantoria, 
Poética Olindense, O Livro de Poesia de Olímpio 
Bonald Neto.