sábado, 27 de abril de 2019

"POÉTICA", DE HEBERTO PADDILA (CUBA) : "Diga, ao menos, a sua verdade."







HEBERTO PADILLA  
(Cuba, 1932 - Estados Unidos, 2000) 




POÉTICA 


Diga a verdade. 
Diga, ao menos, a sua verdade.   
E depois 
deixe que qualquer coisa aconteça : 
que rasguem a sua página preferida, 
que derrubem a pedradas a sua porta, 
que as pessoas 
se amontoem diante do seu corpo 
como se você fosse  
um prodígio ou um morto.   



(Tradução de Giovanna Guterres) 



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HEBERTO PADILLA  - Poeta nascido em Puerto del Golpe, 
Pinar del Rio, Cuba, no ano de 1932. Em 1948 publicou 
o seu primeiro livro de poesia : Las rasas audazes. 
Fundou a Unión  de Escritores y Artistas de Cuba 
e foi diretor do Conselho Nacional de Cultura. 
Conquistou o prêmio "Casa de las Américas" 
com o seu livro de poesia El Justo Tiempo Humano. 
Saiu de Cuba em 1980. Publicou mais dois livros 
de poesia (em 1981 e em 1998). Viveu nos Estados Unidos 
até o seu falecimento no ano 2000.  

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

"COMPOSIÇÕES", DE EDSON RÉGIS







Edson Régis, poeta 
e jornalista pernambucano 



I

Não terei a pressa 
que aniquila o verso.  
Na manhã presente 
a flor talvez não seja
como anunciaram.  

Esta é a palavra 
de límpida fonte, 
precisa como o sábado, 
nítida e leve 
como pura lágrima, 
lenta, rolando 
pela face : 
liga teu verso 
a ti mesmo 
que ao céu noturno
será mais puro, 
embora um mistério.    


II 


Agora que é noite
e resta apenas uma estrada  
o silêncio é cultivado 
até a aurora.     

Na fria areia
o primitivo gesto 
do poeta dorme. 
Asas lhe faltam, 
à terra está preso.  
Noite de ferro 
pesa nos seus braços.  

O poeta entrega-se 
aos seus hábitos
e prepara uma fuga
- um novo reino 
entre a vida e a morte.  



(Transcrito da antologia  
PERNAMBUCO, TERRA DA POESIA 
- organizada por Antonio Campos 
e Cláudia Cordeiro) 


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EDSON RÉGIS DE CARVALHO -  Nasceu em Timbaúba - PE, 
no ano de 1923. Bacharel em Direito, poeta e jornalista especializado
na crônica política. Dirigiu a revista Região e organizou, em João 
Pessoa - PB, "O Correio das Artes" suplemento literário do jornal 
A União (biênio 1949 - 1950). Publicou, nesse período, a Antologia 
dos Novos, com orientação de Ferreira de Holanda. Publicou o livro 
de poesia O Deserto e os Números (1949). 
 Faleceu no Recife, aos 43 anos de idade (25 de julho de 1966), 
vítima de um atentado a bomba, no Aeroporto dos Guararapes, 
quando, por indicação do governador Paulo Guerra, foi recepcionar 
o então Presidente da República, General Costa e Silva. 
Em 1971, a Imprensa Universitária da UFPE 
publicou a edição póstuma de As Condições Ambientes,
incluindo a reedição do seu primeiro livro.    

sábado, 19 de janeiro de 2019

SÉRGIO DE CASTRO PINTO : "RIOS, CIDADES, POETAS"







Sérgio de Castro Pinto  
(João Pessoa, PB) 




o paraíba, o mamanguape, 
o tigre, o eufrates, 
o tejo, o sena, 


não desviam o curso do poema.  


o poema, nenhum rio 
ou cidade o fazem.  
só os poetas, à margem do lápis : 


caniço pensante na maré vazante da linguagem. 


(dedicado a Moema Selma D'Andrea) 



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Transcrito da antologia FOLHA CORRIDA  
- Poemas escolhidos (1967 - 2017) -, 
de Sérgio de Castro Pinto  / 
Escrituras Editora, São Paulo, 2017

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Juareiz Correya : UM POETA É A SUA POESIA






JORNAL DO COMMERCIO / 
Caderno C (Recife, PE - 
25 de Outubro de 1998) 




UM POETA É A SUA POESIA 

À memória do poeta 
José Paulo Paes


Conhecer um poeta, quem sabe 
um dia alguém conhecerá ?  
Parentes e aderentes, em casa, 
a alguns metros na rua, noutros lugares do mapa, 
lembram o seu nome ? 
Próximos e amigos, por caminhos 
diários, memórias, planos futuros, 
estão ao seu lado quando ele se anuncia ? 
Mulheres, companheiras, parceiras da alegria 
ou da parte triste do coração, 
terão qualquer discernimento ou sabedoria 
quando o poeta fala chora ri soluça 
canta explode ? 
ou quando o poeta silencia ? 
Dão importância a qualquer palavra 
 que o poeta escreve ou escreverá um dia ? 
Críticos e esgrimistas cínicos e céticos -     
plantados nas esquinas, chocando nos bares, 
mercadejando nas redações de jornais, rádios e TVs, 
ou piruetando nos salões e festas vazias, 
os críticos sabem o que é o poeta e a sua poesia ? 
Sabem que a palavra é arrancada da alma, 
que há uma hemorragia em cada verso ? 
Nenhum crítico é capaz de descobrir a dor 
- a inconcluída dor humana - 
que impõe ao poeta a confissão medonha 
intransferível e única 
que ninguém vê nem sente.  
Sabem todos o que é o inferno por dentro 
do mesmo corpo trespassado de fogo e luz ? 
As danações misérias sortes iluminações e desertos 
torturando e animando cada passo gesto 
toque risco pétala suspiro e frêmito e grito 
que condenam o poeta ao seu poema ?   


Ah! se soubessem que o poeta 
não é melhor nem maior do que ninguém 
- é só um homem com a capacidade de fazer versos - 
mas que ele é o melhor e o maior de todos os homens 
com a humanidade do seu coração em tudo o que escreve.   


terça-feira, 30 de outubro de 2018

DOSSIÊ DRUMMOND : "Para mim, não há maiores poetas. Há poetas. E cada poeta é diferente dos outros."






DOSSIÊ DRUMMOND 
(capa) 
- Reportagem biográfica 
de Geneton Moraes Neto 
(Editora Globo, 2a. edição, 2010
- São Paulo, SP)



         Geneton Moraes Neto : 

          - O fato de ser considerado unanimemente o maior poeta brasileiro não é um acontecimento importante para o senhor ?

          Carlos Drummond de Andrade : 
          
          - (...) 
            "A maioria das pessoas que me consideram o maior poeta brasileiro não leu o que escrevi ! Ouviu falar. Como acham que fulano de tal é o maior craque do futebol, o outro fulano é o maior compositor, o outro é o maior pintor, eu fiquei sendo o maior poeta por um julgamento que não é um julgamento literário : é uma opinião transmitida socialmente, mas sem nenhuma ponderação crítica. Nunca me julguei nem julgo, e digo mais : não sei qual é o maior poeta brasileiro de hoje nem de ontem.  Para mim, não há maiores poetas.  Há poetas. E cada poeta é diferente dos outros.  Se não for diferente e se não transmitir uma forma particular e uma maneira especial de sentir, ver e manifestar poesia, ele não é poeta.  Então, temos um poeta como Gonçalves Dias, um grandessíssimo poeta.  Mário de Andrade é outro - um notável poeta.  Manuel Bandeira...eles não são parecidos uns com os outros. Se são parecidos é porque um copiou e imitou o outro.  Nesse caso, não é tão bom quanto o anterior."    
     

          

domingo, 2 de setembro de 2018

JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA : "A FORÇA DO POEMA..."






José Eduardo Degrazia
(Porto Alegre, RS) 



A FORÇA DO POEMA 
E/OU SUA SEM-CERIMÔNIA   


O poema 
entrou em mim 


como se 
derrubasse a porta 
de uma casa  


ou simplesmente 
enrolasse os pés 
no tapete  


e caísse 
sobre o peito 
de um homem.  


Só arestas, 
seco, ácido 
de um lado, 


duro: pedra, 
afiado: faca, 
explosivo: obus, 


não deixou 
alternativa: detoná-lo 
no branco da página.     



(Transcrito do livro "Lavra Permanente" 
- Editora Movimento, Porto Alegre, RS, 1975) 



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JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA - Nasceu em Porto Alegre, RS, 
no ano de 1951. Tem mais de 20 livros de poesia, contos 
e novelas publicados. Livros de  poesia : Lavra Permanente 
(1975), Cidade Submersa (1979), A Porta do Sol (1982), 
O Amor Essa Palavra (1992), Um Animal Espera (2011), 
entre outros.  Participa de mais de 30 antologias nacionais 
e estrangeiras. Tem livros traduzidos para o espanhol, 
italiano, francês, inglês e esloveno.   





sábado, 7 de julho de 2018

JORGE LUÍS BORGES : "A poesia pode saltar sobre nós a qualquer instante"







Jorge Luís Borges, 
poeta, contista, tradutor, 
crítico literário e ensaísta argentino
(1899 - 1986) 



          "Passamos à poesia; passamos à vida.  E a vida, tenho certeza, é feita de poesia.  A poesia não é alheia - a poesia, como veremos, está logo ali, à espreita.  Pode saltar sobre nós a qualquer instante.  Ora, tendemos a fazer uma confusão corriqueira.  Pensamos, por exemplo, que se estudarmos Homero, ou a Divina Comédia, ou Frei Luís de León, ou Macbeth, estaremos estudando poesia. Mas os livros são somente ocasiões para a poesia.  Creio que Emerson escreveu em algum lugar que uma biblioteca é um tipo de caverna mágica cheia de mortos.  E aqueles mortos podem ser ressuscitados, podem ser trazidos de volta à vida quando se abrem as suas páginas.  Falando sobre o bispo Berkeley 
(que, permitam-me lembrar, foi um profeta da grandeza dos Estados Unidos), lembro que ele escreveu que o gosto da maçã não estava nem na própria maçã - a maçã não pode ter gosto por si mesma - nem na boca de quem come.  É preciso um contato entre elas.  O mesmo acontece com um livro ou uma coleção  deles, uma biblioteca.  Pois o que é um livro em si mesmo ? Um livro é um objeto físico num mundo de objetos físicos.  É um conjunto de símbolos mortos.  E então aparece o leitor certo, e as palavras - ou, antes, a poesia por trás das palavras, pois as próprias palavras são meros símbolos - saltam para a vida, e temos uma ressurreição da palavra." 



(Trecho de O Enigma da Poesia / 
 Reprodução do blog de Luiz Alberto Machado 
- http://blogdotataritaritata.blogspot.com.br )