domingo, 22 de agosto de 2021

PABLO NERUDA : "VIM AQUI PARA CANTAR E PARA QUE CANTES COMIGO"

 




PABLO NERUDA  (Chile, 1904 - 1973) 

- Prêmio Nobel de Literatura  de 1971



QUE ACORDE O LENHADOR 


 ..............................................

Aqui eu me despeço, volto 

para a casa, em meus sonhos, 

volto para a Patagônia onde 

o vento bate nos estábulos

e respinga e gela o Oceano.  

Não sou mais que um poeta: amo todos vós, 

ando errante pelo mundo que amo : 

em minha pátria encarceram mineiros 

e os soldados mandam nos juízes. 

Porém eu amo até as raízes 

de meu pequeno país frio. 

Se tivesse que morrer mil vezes 

lá quero morrer; 

se tivesse de nascer mil vezes 

lá quero nascer, 

perto da araucária selvagem, 

do vendaval do vento sul, 

dos sinos recém-comprados. 

Que ninguém pense em mim. 

Pensemos na terra toda, 

batendo com amor na mesa. 

Não quero que volte o sangue  

a empapar o pão, os feijões, 

a música; quero que venha  

comigo o mineiro, a menina, 

o advogado, o marinheiro, 

o fabricante de bonecas, 

que entremos no cinema e saiamos 

para beber o vinho mais rubro.  


Não venho para resolver nada. 


Vim aqui para cantar 

e para que cantes comigo. 


(Fragmento final do poema "Que Acorde o Lenhador", do livro CANTO GERAL, de Pablo Neruda, em tradução de Paulo Mendes Campos - DIFEL Difusão Editorial S.A., São Paulo - SP, 4a. edição, 1981) 


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PABLO NERUDA (pseudônimo de Nefatli Ricardo Reys Basoalto) nasceu no dia 12 de julho de 1904 em Parral, Chile. Marxista e revolucionário, cantou as angústias da Espanha de 1936 e a condição dos povos latino-americanos e seus movimentos libertários. Diplomata desde cedo, foi cônsul na Espanha e no México. Desenvolve intensa vida política e publica, de 1921 a 1940, entre outras, as seguintes obras : "La canción de la fiesta", "Crepusculario", Veinte poemas de amor y una canción desesperada",  "Tentativa  del hombre infinito", "Residencia en la tierra" e "Oda a Stalingrado". Participa da campanha da Unidade Popular que elege Allende e é nomeado embaixador do Chile na França. Data de 1950 o seu grande livro "Canto General" (Canto Geral). Pablo Neruda morreu no dia 23 de setembro de 1973 em Santiago do Chile, oito dias após a queda do Governo da Unidade Popular e da morte do presidente  Salvador Allende. 

(Nota da DIFEL Difusão Editorial S.A) 



domingo, 14 de fevereiro de 2021

HERMILO BORBA FILHO : "O POETA VÊ TUDO MAIS ALÉM"

 


Hermilo Borba Filho, 

em sua residência, no Recife (PE). 

Década de 1970 



"O poeta é um ser que vive permanentemente em estado de sofrimento por si mesmo e pelo mundo que o rodeia. Quando o mundo atinge a sua zona mais alta de tortura, tanto no estado da lucidez como no das intuições (quase sempre mais válidas), o poeta se contorce como uma salamandra no fogo e canta tragicamente. Por ser mais agudo e perspicaz que as pessoas que o cercam vê tudo mais além, exacerbadamente, desejando o que não pode e fazendo o que segundo os bons costumes não deveria fazer. 

(...) 

Mas tenho cá comigo que devemos crer mesmo contra a esperança e é o que aconselharia ao poeta se me atrevesse a dar conselhos : olhar em volta mais acuradamente, com este olhar de gavião que os poetas têm mesmo quando se fingem de mortos, e ver que há coisas mais importantes para se cuidar além da própria dor, a começar pelo homem, indigente e desamparado." 

("Jornal da Cidade", Recife, PE, 1975) 


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HERMILO BORBA FILHO (Palmares, PE, 1917). Dramaturgo, diretor teatral, romancista, novelista, contista,professor universitário (UFPE).  Romancista traduzido na Argentina e na França. Faleceu no Recife no ano de 1976. Em sua homenagem, a sua cidade natal criou a Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho (1983) e o Recife criou o Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo-Hermilo (1988).  

domingo, 8 de novembro de 2020

BRUNA LOMBARDI : "Acredito que todo leitor de poesia tem poesia dentro de si"

 





BRUNA LOMBARDI  

(Entrevista da ISTOÉ, agosto / 2020) 



"Acredito que todo leitor de poesia tem poesia dentro de si, para poder escutar 

essa música dentro de si, para poder escutar essa música inaudível.  Essa 

emoção transformada em palavras. E o processo de escrever nasce da observação.

É preciso estar atento à vida.  Não só para a vida circunstancial, mas para a vida 

essencial - o que você tem dentro de você.  Quanto mais você se conhece, 

maior a abrangência dos canais com o mundo.  E essa conexão 

do que acontece ao seu redor, a extensão daquilo que te cerca.   

Não importa o tamanho, importa o voo."  



(Trecho da entrevista concedida a Mariana Ferrari,  

 da Revista ISTOÉ / São Paulo - SP, agosto 2020) 


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BRUNA LOMBARDI (São Paulo - SP, 1952) 

é poetisa, atriz, produtora, apresentadora e roteirista 

de cinema.  Publicou os livros de poesia No Ritmo dessa Festa

(1976). Gaia (1980), O Perigo do Dragão (1984). 

Poesia Reunida (2017) e Clímax (2017). 



domingo, 30 de agosto de 2020

FERREIRA GULLAR : POESIA "SUBVERSIVA" NA VERTIGEM DO DIA

 



 


SUBVERSIVA, poema de Ferreira Gullar (pag.2) 

e capa da Revista POESIA -  Número 4, Agosto / Setembro, 1980

(Nordestal Editora, Recife - PE) 


SUBVERSIVA 


                                                                  Ferreira Gullar  



A poesia 

quando chega

                                                         não respeita nada. 

Nem pai nem mãe. 

                                                       Quando ela chega 

de qualquer de seus abismos  

desconhece o Estado e a Sociedade Civil 

desrespeita o Código de Águas  

                                                                                                       relincha 

como puta 

          nova 

                                                              em frente ao Palácio da Alvorada.   


E só depois 

reconsidera :   beija 

                                                                   nos olhos  os que ganham mal 

                                          embala no colo

                                                                    os que têm sede de felicidade  

                                      e de justiça  


                                    E promete incendiar o país   




sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

GERALDINO BRASIL : "O POETA É ANTERIOR AO SEU VERSO"






Geraldino Brasil 
e Beatriz Brenner  
(Recife, PE)




"Creio com crença que não se aprende a ser poeta. 
Não conheço poeta que antes não o tenha sido. 
Porque é coisa do espírito, 
este é a sua fonte. 
Aprende-se a fazer versos, 
não a ser poeta. 
Porque o poeta, 
com o seu espírito, 
é anterior ao seu verso."    



(Divulgação de Beatriz Brenner / 
Via Facebook) 


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GERALDINO BRASIL nasceu em Atalaia (AL). Mudou-se 
para o Recife na década de 1950. Publicou, entre outros, 
em edições do autor, os seguintes livros de poesia : 
"Alvorada", "Coração", "Poemas Insólitos e Desesperados", 
"Cidade do Não", "Sonetos ao Sol e Outros Poemas", 
"Todos os Dias, Todas as Horas", "Bem Súbito" e, 
com tradução de Jaime Jaramillo Escobar, "Poemas" 
(Colômbia).  
A Cepe Editora (www.cepe.com.br) tem editado e reeditado, 
nos últimos anos, a poesia de Geraldino Brasil.   

domingo, 10 de novembro de 2019

WALT WHITMAN : "CANÇÃO DE MIM MESMO"





WALT WHITMAN 
(fotografado no período de edição 
do livro "Folhas de Relva") 



CANÇÃO DE MIM MESMO 


Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo. 
E aquilo que eu presumir, também presumirás, 
Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.   

Descanso e convido a minha alma, 
Deito-me e descanso tranquilamente, observando uma haste da relva de verão. 

Minha língua, todo átomo do meu sangue formado deste solo, deste ar, 
Nascido aqui de pais nascido aqui de pais o mesmo e seus pais também o mesmo, 
Eu agora com trinta e sete anos de idade, com saúde perfeita, dou início, 
Com a esperança de não cessar até morrer.   


.......................................................................................  


Sou o poeta do Corpo e sou o poeta da Alma, 
Os prazeres do céu estão comigo e as dores do inferno estão comigo, 
O primeiro eu transplanto e amplio sobre mim e o segundo traduzo em uma nova língua. 

Eu sou o poeta da mulher tanto quanto o do homem, 
E digo que é tão grandioso ser uma mulher como ser um homem, 
E digo que não há nada maior do que ser a mãe dos homens.    

Canto o canto da expansão ou do orgulho, 
Já tivemos fuga e censura o suficiente, 
Revelo que o tamanho é apenas o desenvolvimento.  

Ultrapassaste os demais ? És o Presidente ? 
Isso é ninharia, eles irão além desse teu feito.   

Eu sou aquele que caminha com a noite que cresce brandamente, 
Clamo à terra e ao mar, em parte abraçados pela noite.   

Estampa-te em mim, noite de seio nu -  estampa-te em mim, noite magnética e nutritiva ! 
Noite do vento sul - noite de estrelas grandes e escassas ! 
Noite imóvel e ondulante - noite de verão louca e desnuda.    



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WALT WHITMAN nasceu, no dia 31 de maio de 1819, em West Hills, 
Long Island, Estado de Nova Iorque (EUA). Publica a primeira edição 
de "Folhas de Relva" em 1855 e, até o ano de sua morte, em 1892, 
o livro alcançou 9 edições.  Considerado, pela crítica mundial,  
o maior poeta da literatura norte-americana, sua obra-prima 
"Folhas de Relva", um dos pilares das letras modernas, 
teve a sua edição completa, traduzida por Luciano Alves Meira, 
publicada no Brasil, pela primeira vez, em 2006 
(Editora Martin Claret, São Paulo, SP). 


domingo, 2 de junho de 2019

OCTAVIO PAZ : "TRABALHOS DO POETA" (Fragmento)







OCTAVIO PAZ  (à esquerda da foto)
e o poeta Haroldo de Campos,
 seu tradutor, em São Paulo,  SP, 1985.



TRABALHOS DO POETA 
(Fragmento) 


Uma linguagem que corte o fôlego. Rasante, talhante, cortante. Um 
exército de espadas. Uma linguagem de aços exatos, de relâmpagos 
afiados, de esdrúxulas e agudas, incansáveis, reluzentes, metódicas 
navalhas. Uma linguagem guilhotina. Uma dentadura trituradora,
que faça uma pasta dos eutuelenósvóseles. Um vento de punhais
que desgarre e desarraigue e descoalhe e desonre as famílias, os templos, 
as bibliotecas, os cárceres, os bordéis, os colégios, os manicômios, as 
fábricas, as academias, os pretórios, os bancos, as amizades, 
as tabernas, a esperança, a revolução, a caridade, a justiça, as crenças, 
os erros, as verdades, a verdade.   



(Em ÁGUIA E SOL, de 1949 - 1950 / 
Transcrito do livro TRANSBLANCO, 
de Octavio Paz, em tradução de 
  Haroldo de Campos 
- Editora Guanabara, Rio de Janeiro, RJ, 1986) 

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OCTAVIO PAZ - Nasceu na Cidade do México (1914), capital 
do México, onde faleceu (1998). 
Poeta, ensaísta, tradutor e diplomata do seu País desde o ano 
de 1945. Viveu nos Estados Unidos, Espanha, França, 
Japão e Índia.  Publicou mais de 20 livros de poesia, 
 e incontáveis ensaios de literatura, arte, cultura e política.  
Entre outros, conquistou três grandes prêmios mundiais : 
Prêmio Jerusalém (1977), Prêmio Cervantes (1981) e 
Prêmio Nobel de Literatura (1990).  

sábado, 27 de abril de 2019

"POÉTICA", DE HEBERTO PADDILA (CUBA) : "Diga, ao menos, a sua verdade."







HEBERTO PADILLA  
(Cuba, 1932 - Estados Unidos, 2000) 




POÉTICA 


Diga a verdade. 
Diga, ao menos, a sua verdade.   
E depois 
deixe que qualquer coisa aconteça : 
que rasguem a sua página preferida, 
que derrubem a pedradas a sua porta, 
que as pessoas 
se amontoem diante do seu corpo 
como se você fosse  
um prodígio ou um morto.   



(Tradução de Giovanna Guterres) 



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HEBERTO PADILLA  - Poeta nascido em Puerto del Golpe, 
Pinar del Rio, Cuba, no ano de 1932. Em 1948 publicou 
o seu primeiro livro de poesia : Las rasas audazes. 
Fundou a Unión  de Escritores y Artistas de Cuba 
e foi diretor do Conselho Nacional de Cultura. 
Conquistou o prêmio "Casa de las Américas" 
com o seu livro de poesia El Justo Tiempo Humano. 
Saiu de Cuba em 1980. Publicou mais dois livros 
de poesia (em 1981 e em 1998). Viveu nos Estados Unidos 
até o seu falecimento no ano 2000.  

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

"COMPOSIÇÕES", DE EDSON RÉGIS







Edson Régis, poeta 
e jornalista pernambucano 



I

Não terei a pressa 
que aniquila o verso.  
Na manhã presente 
a flor talvez não seja
como anunciaram.  

Esta é a palavra 
de límpida fonte, 
precisa como o sábado, 
nítida e leve 
como pura lágrima, 
lenta, rolando 
pela face : 
liga teu verso 
a ti mesmo 
que ao céu noturno
será mais puro, 
embora um mistério.    


II 


Agora que é noite
e resta apenas uma estrada  
o silêncio é cultivado 
até a aurora.     

Na fria areia
o primitivo gesto 
do poeta dorme. 
Asas lhe faltam, 
à terra está preso.  
Noite de ferro 
pesa nos seus braços.  

O poeta entrega-se 
aos seus hábitos
e prepara uma fuga
- um novo reino 
entre a vida e a morte.  



(Transcrito da antologia  
PERNAMBUCO, TERRA DA POESIA 
- organizada por Antonio Campos 
e Cláudia Cordeiro) 


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EDSON RÉGIS DE CARVALHO -  Nasceu em Timbaúba - PE, 
no ano de 1923. Bacharel em Direito, poeta e jornalista especializado
na crônica política. Dirigiu a revista Região e organizou, em João 
Pessoa - PB, "O Correio das Artes" suplemento literário do jornal 
A União (biênio 1949 - 1950). Publicou, nesse período, a Antologia 
dos Novos, com orientação de Ferreira de Holanda. Publicou o livro 
de poesia O Deserto e os Números (1949). 
 Faleceu no Recife, aos 43 anos de idade (25 de julho de 1966), 
vítima de um atentado a bomba, no Aeroporto dos Guararapes, 
quando, por indicação do governador Paulo Guerra, foi recepcionar 
o então Presidente da República, General Costa e Silva. 
Em 1971, a Imprensa Universitária da UFPE 
publicou a edição póstuma de As Condições Ambientes,
incluindo a reedição do seu primeiro livro.    

sábado, 19 de janeiro de 2019

SÉRGIO DE CASTRO PINTO : "RIOS, CIDADES, POETAS"







Sérgio de Castro Pinto  
(João Pessoa, PB) 




o paraíba, o mamanguape, 
o tigre, o eufrates, 
o tejo, o sena, 


não desviam o curso do poema.  


o poema, nenhum rio 
ou cidade o fazem.  
só os poetas, à margem do lápis : 


caniço pensante na maré vazante da linguagem. 


(dedicado a Moema Selma D'Andrea) 



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Transcrito da antologia FOLHA CORRIDA  
- Poemas escolhidos (1967 - 2017) -, 
de Sérgio de Castro Pinto  / 
Escrituras Editora, São Paulo, 2017

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Juareiz Correya : UM POETA É A SUA POESIA






JORNAL DO COMMERCIO / 
Caderno C (Recife, PE - 
25 de Outubro de 1998) 




UM POETA É A SUA POESIA 

À memória do poeta 
José Paulo Paes


Conhecer um poeta, quem sabe 
um dia alguém conhecerá ?  
Parentes e aderentes, em casa, 
a alguns metros na rua, noutros lugares do mapa, 
lembram o seu nome ? 
Próximos e amigos, por caminhos 
diários, memórias, planos futuros, 
estão ao seu lado quando ele se anuncia ? 
Mulheres, companheiras, parceiras da alegria 
ou da parte triste do coração, 
terão qualquer discernimento ou sabedoria 
quando o poeta fala chora ri soluça 
canta explode ? 
ou quando o poeta silencia ? 
Dão importância a qualquer palavra 
 que o poeta escreve ou escreverá um dia ? 
Críticos e esgrimistas cínicos e céticos -     
plantados nas esquinas, chocando nos bares, 
mercadejando nas redações de jornais, rádios e TVs, 
ou piruetando nos salões e festas vazias, 
os críticos sabem o que é o poeta e a sua poesia ? 
Sabem que a palavra é arrancada da alma, 
que há uma hemorragia em cada verso ? 
Nenhum crítico é capaz de descobrir a dor 
- a inconcluída dor humana - 
que impõe ao poeta a confissão medonha 
intransferível e única 
que ninguém vê nem sente.  
Sabem todos o que é o inferno por dentro 
do mesmo corpo trespassado de fogo e luz ? 
As danações misérias sortes iluminações e desertos 
torturando e animando cada passo gesto 
toque risco pétala suspiro e frêmito e grito 
que condenam o poeta ao seu poema ?   


Ah! se soubessem que o poeta 
não é melhor nem maior do que ninguém 
- é só um homem com a capacidade de fazer versos - 
mas que ele é o melhor e o maior de todos os homens 
com a humanidade do seu coração em tudo o que escreve.   


terça-feira, 30 de outubro de 2018

DOSSIÊ DRUMMOND : "Para mim, não há maiores poetas. Há poetas. E cada poeta é diferente dos outros."






DOSSIÊ DRUMMOND 
(capa) 
- Reportagem biográfica 
de Geneton Moraes Neto 
(Editora Globo, 2a. edição, 2010
- São Paulo, SP)



         Geneton Moraes Neto : 

          - O fato de ser considerado unanimemente o maior poeta brasileiro não é um acontecimento importante para o senhor ?

          Carlos Drummond de Andrade : 
          
          - (...) 
            "A maioria das pessoas que me consideram o maior poeta brasileiro não leu o que escrevi ! Ouviu falar. Como acham que fulano de tal é o maior craque do futebol, o outro fulano é o maior compositor, o outro é o maior pintor, eu fiquei sendo o maior poeta por um julgamento que não é um julgamento literário : é uma opinião transmitida socialmente, mas sem nenhuma ponderação crítica. Nunca me julguei nem julgo, e digo mais : não sei qual é o maior poeta brasileiro de hoje nem de ontem.  Para mim, não há maiores poetas.  Há poetas. E cada poeta é diferente dos outros.  Se não for diferente e se não transmitir uma forma particular e uma maneira especial de sentir, ver e manifestar poesia, ele não é poeta.  Então, temos um poeta como Gonçalves Dias, um grandessíssimo poeta.  Mário de Andrade é outro - um notável poeta.  Manuel Bandeira...eles não são parecidos uns com os outros. Se são parecidos é porque um copiou e imitou o outro.  Nesse caso, não é tão bom quanto o anterior."    
     

          

domingo, 2 de setembro de 2018

JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA : "A FORÇA DO POEMA..."






José Eduardo Degrazia
(Porto Alegre, RS) 



A FORÇA DO POEMA 
E/OU SUA SEM-CERIMÔNIA   


O poema 
entrou em mim 


como se 
derrubasse a porta 
de uma casa  


ou simplesmente 
enrolasse os pés 
no tapete  


e caísse 
sobre o peito 
de um homem.  


Só arestas, 
seco, ácido 
de um lado, 


duro: pedra, 
afiado: faca, 
explosivo: obus, 


não deixou 
alternativa: detoná-lo 
no branco da página.     



(Transcrito do livro "Lavra Permanente" 
- Editora Movimento, Porto Alegre, RS, 1975) 



__________________________________________________
JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA - Nasceu em Porto Alegre, RS, 
no ano de 1951. Tem mais de 20 livros de poesia, contos 
e novelas publicados. Livros de  poesia : Lavra Permanente 
(1975), Cidade Submersa (1979), A Porta do Sol (1982), 
O Amor Essa Palavra (1992), Um Animal Espera (2011), 
entre outros.  Participa de mais de 30 antologias nacionais 
e estrangeiras. Tem livros traduzidos para o espanhol, 
italiano, francês, inglês e esloveno.   





sábado, 7 de julho de 2018

JORGE LUÍS BORGES : "A poesia pode saltar sobre nós a qualquer instante"







Jorge Luís Borges, 
poeta, contista, tradutor, 
crítico literário e ensaísta argentino
(1899 - 1986) 



          "Passamos à poesia; passamos à vida.  E a vida, tenho certeza, é feita de poesia.  A poesia não é alheia - a poesia, como veremos, está logo ali, à espreita.  Pode saltar sobre nós a qualquer instante.  Ora, tendemos a fazer uma confusão corriqueira.  Pensamos, por exemplo, que se estudarmos Homero, ou a Divina Comédia, ou Frei Luís de León, ou Macbeth, estaremos estudando poesia. Mas os livros são somente ocasiões para a poesia.  Creio que Emerson escreveu em algum lugar que uma biblioteca é um tipo de caverna mágica cheia de mortos.  E aqueles mortos podem ser ressuscitados, podem ser trazidos de volta à vida quando se abrem as suas páginas.  Falando sobre o bispo Berkeley 
(que, permitam-me lembrar, foi um profeta da grandeza dos Estados Unidos), lembro que ele escreveu que o gosto da maçã não estava nem na própria maçã - a maçã não pode ter gosto por si mesma - nem na boca de quem come.  É preciso um contato entre elas.  O mesmo acontece com um livro ou uma coleção  deles, uma biblioteca.  Pois o que é um livro em si mesmo ? Um livro é um objeto físico num mundo de objetos físicos.  É um conjunto de símbolos mortos.  E então aparece o leitor certo, e as palavras - ou, antes, a poesia por trás das palavras, pois as próprias palavras são meros símbolos - saltam para a vida, e temos uma ressurreição da palavra." 



(Trecho de O Enigma da Poesia / 
 Reprodução do blog de Luiz Alberto Machado 
- http://blogdotataritaritata.blogspot.com.br ) 
  

quarta-feira, 13 de junho de 2018

MANUEL ALEGRE : A POESIA É UM TERRITÓRIO "DE DEFESA DA LIBERDADE DE ESCOLHA DE CADA POVO"






Manuel Alegre, poeta português, 
Prêmio Camões 2017 




          "Nesta era da globalização e de um novo bezerro de ouro, em que o poder financeiro impõe a sua hegemonia sobre a política, a democracia, a cultura e os próprios Estados, a literatura e, em especial, a poesia, podem ser ainda um território de resistência contra o pensamento único e de defesa da liberdade de escolha de cada povo."   

          Manuel Alegre lembrou que a Língua Portuguesa "anda pelos cinco continentes, língua de diferentes identidades e culturas, em que as vogais não têm todas a mesma cor.  E em que as consoantes, como se sabe, em Portugal assobiam, na África cantam e no Brasil dançam."   

          O ministro da Cultura disse que a Academia das Ciências de Lisboa indicou para a lista do Nobel de Literatura os nomes de Agustina Bessa-Luís e Manuel Alegre.    



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Transcrito do site TSF - Rádio de Notícias  (www.tsf.pt) 

          

sábado, 28 de abril de 2018

SEBASTIÃO VILA NOVA : "De poetas e de poesia"






SEBASTIÃO VILA NOVA  
(Sociólogo da Fundação Joaquim Nabuco 
e professor da UNICAP, do Recife - PE) 



          (...) Afinal, esse negócio de fazer poesia, como se entende comumente a poesia, é uma temeridade, uma loucura.  É coisa para abalar a reputação de qualquer um.  Antes de mais nada, porque fazer poesia é subverter uma das coisas mais caras ao homem, o seu instrumento básico de comunicação: a linguagem verbal.  Por isso é que a poesia, a partir do fato de que ela se baseia na subversão do sentido cotidiano das palavras, é uma atividade não só marginal, mas antissocial.  Por isso, também, é que quem se mete com esse negócio de andar fazendo e principalmente publicando poesia deve ter a consciência do estigma que a sociedade reserva a esse tipo de transgressor.   A maioria das pessoas, os homens "sérios" e práticos, os sensatos, os virtuosos de domingo costumam olhar, no mínimo com tolerância, quando não com desdém, para quem perde seu tempo com essa "coisa inútil".  Quem não sabe o que é que se quer dizer quando se afirma, em geral com algum desprezo mal disfarçado em condescendência, que "fulano é um poeta" ? 

           (...) Mas acontece que a poesia, toda poesia, guarda a mesma atenção, a mesma valorização dos sentimentos como é própria da juventude.  A poesia, afinal, guarda a mesma valorização do sonho como uma possibilidade concretizável.  

          Mas, para o "filisteu", toda arte, e não só a poesia, é apenas uma coisa tolerável.  Como também quem a faz.  Ele é incapaz de compreender o quanto poesia e poeta jamais serão demais no mundo.  Porque, como dizia Elliot, apreendendo ou atribuindo novos matizes de significado às palavras, o poeta concorre para o refinamento da sensibilidade dos homens e, portanto, para o aperfeiçoamento do convívio, para a civilização.  E por isso é que a poesia, acho que Elliot tinha razão, tem uma função social.    

(Crônica publicada no DIARIO DE PERNAMBUCO, 
 5 de janeiro de 1984 / Transcrita do livro A VOLTA DO CIGANO 
- Crônicas, artigos e entrevistas literárias de Sebastião Vila Nova - 
 Fundação Joaquim Nabuco / Editora Massangana, Recife, PE, 2016)

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SEBASTIÃO VILA NOVA, alagoano de nascimento (1944). 
Poeta, cronista, sociólogo, professor, 
publicou, entre outros, estes livros : INTRODUÇÃO À 
SOCIOLOGIA, SOCIOLOGIAS E PÓS-SOCIOLOGIAS 
EM GILBERTO FREYRE; e DONALD PIERSON E 
A ESCOLA DE CHICAGO NA SOCIOLOGIA BRASILEIRA: 
ENTRE HUMANISTAS E MESSIÂNICOS.  
Em 2002, recebeu o título de "Cidadão Pernambucano", 
concedido pela Assembléia Legislativa do Estado. 
Faleceu, no Recife, no início deste ano de 2018. 





terça-feira, 20 de março de 2018

DIA DO POETA (14 de Março, 2018) - Teresinka Pereira







Teresinka Pereira, poetisa e tradutora 
(Brasil - Estados Unidos) 




A PALAVRA RENASCE 
NA VOZ DE UM POETA 
QUE RESPIRA EMOÇÕES  
EM RITMO DE SABEDORIA.  



O POETA TEM ALMA 
DE ARTISTA E ANJO: 
O MUNDO E O CÉU 
ABENÇOAM SEU TEMPO 
INTEIRO EM UM SÓ DIA.  





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TERESINKA PEREIRA nasceu no Brasil e tem residência 
nos Estados Unidos desde a época da ditadura militar 
(década de 1960). 
É presidente da Associação Internacional de Escritores 
e Artistas (IWA), organização que reúne mais de 1.400 
membros nos cinco continentes. Escreve e publica poemas 
em português, espanhol e inglês.  
Poetisa e tradutora, divulga a poesia brasileira entre os 
povos dos países, por onde sempre viaja, em busca de 
novas experiências de vida e de arte poética.   

sexta-feira, 2 de março de 2018

JOSÉ GOMES FERREIRA : "VAI-TE, POESIA !"





JOSÉ GOMES FERREIRA  
(Parque dos Poetas, 
Oeiras, Lisboa, Portugal) 



VAI - TE, POESIA ! 



Deixa-me ver a vida
exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
(...)


Vai-te, Poesia ! 


Não quero cantar. 
Quero gritar ! 



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JOSÉ GOMES FERREIRA  -  Poeta português, nascido em Porto 
no dia 9 de junho de 1900, faleceu, aos 84 anos, no dia 8 
de fevereiro de 1985, em Lisboa. Também ficcionista, cronista, 
ensaísta e tradutor, publicou mais de 35 livros.  
Em 1978 foi projetada, em Lisboa, pelo seu filho Raul Hestnes 
Ferreira, a Escola Secundária de Benfica, que, em sua homenagem, 
recebeu a denominação de Escola Secundária de José Gomes 
Ferreira.  

(Mais informações : http://pt.wikipedia.org/wiki/Jose_Gomes_Ferreira#Obra)



terça-feira, 23 de janeiro de 2018

DEOLINDO TAVARES : "Sou o maior de todos os descobridores"





DEOLINDO TAVARES 
(Nascido no Recife, em dezembro/1918, 
faleceu no Rio de Janeiro, RJ, 
aos 24 anos de idade) 




O POETA 


Sou mais pobre do que Job. 
Sou mais rico do que Salomão. 
Sou um poeta. Sou o maior de todos os descobridores. 
Sem navio, sem bússola e sem leme, 
descubro istmos e estradas. 
Posso ser amado e odiado, condenado e insultado, 
sem odiar, sem condenar, sem insultar. 
Sei tão somente amar e perdoar. 
Não tenho castelos, nem rosas, nem amores, 
mas, em misterioso sonho, 
ora passeio no carro de Salomão, 
ora durmo sobre as cinzas de Job. 
Alimento-me de céu, de flores e da beleza eterna
das paisagens de Deus;
adormeço num som, 
desperto numa cor, 
morro afogado no mar de uma inesperada estrela. 
Para mim não há, nem ontem, nem amanhã, nem depois, 
vida e morte, alegria nem dor.  
Para mim o dia é uma eternidade. 
A eternidade o menor tempo; 
para mim o tempo não existe, 
pois rasguei todos os calendários do mundo. 
Um dia, tendo as mãos límpidas, a alma serena 
e pureza em meu coração,
caminharei em firmes passos para o céu de Cristo ou de Maomé.   


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Transcrito do livro POESIAS, de Deolindo Tavares  
- Governo do Estado de Pernambuco / Secretaria de Turismo, 
Cultura e Esportes / FUNDARPE / 
CEPE - Companhia Editora de Pernambuco
( Recife, PE, 3a. edição, 1988)  

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

YEVTUSHENKO : "AUTOBIOGRAFIA PRECOCE"






AUTOBIOGRAFIA PRECOCE, 
de Yevtushenko 
(capa) 
- Editora Brasiliense, São Paulo, 
2a. edição, 1987 


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       Para os leitores ocidentais, a afirmação poderá parecer pretensiosa, mas é necessário compreender que o poeta, na Rússia, desempenha um papel diferente dos poetas de outros países.  Na língua russa, a palavra poeta é quase sinônimo de combatente. 

          Em nenhuma outra nação do mundo a poesia tem uma tradição tão ligada à política.  Não é por acaso que os russos consideraram sempre seus poetas como guias espirituais, como os "depositários da verdade". 

     Até mesmo esse sutil poeta lírico, Puchkin, escreveu apelos inflamados que constituíram verdadeiras regras revolucionárias para a juventude progressista do seu tempo.  Ainda que aquelas ideias não sejam mais novidades, aqueles apelos não envelheceram e contém muitas verdades para nossa geração.   

          Alexandre Block, esse mago da poesia intimista, esqueceu-se muitas vezes do eterno mistério da natureza que o apaixonava - a mulher - para levantar sua poderosa voz de poeta em defesa do seu povo.   

          E o grande Maiakovski, que encarnou todas essas tradições na sua gigantesca personalidade de poeta revolucionário, afirmava valer sua pena mais do que uma baioneta.   

          Na Rússia, todos os tiranos  tiveram nos poetas seus piores inimigos. Temeram Puchkin. Tremeram diante de Lermontov. Tiveram medo de Nekrasov.  

          Precisamente, Nekrasov, foi quem lançou num de seus poemas esta célebre fórmula : 


Ser poeta não é obrigação
Ser cidadão é teu dever.


          Eu me sentia encarnando os dois: poeta e cidadão.  Eis porque ansiava deixar o refúgio da poesia lírica, na qual me havia encerrado desde a morte de Stalin.  Não me sentia com o direito de cultivar o jardim japonês da poesia intimista.  Parecia-me imoral decantar a natureza, as mulheres e as dúvidas interiores, quando as pessoas à minha volta estavam esmagadas.

          O exemplo dos grandes poetas russos me provava que essa decisão não implicava nenhum sacrifício artístico.

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Texto transcrito das páginas (84 e 85) 
do livro AUTOBIOGRAFIA PRECOCE, 
de Yevtushenko, editado no Brasil, em 1987,
com tradução de Caio Fernando Abreu.